Revolução nas Páginas: A Força Feminina que Impulsiona a Leitura no Brasil.
Se alguém tivesse me dito, lá no início dos anos 2000, que chegaríamos a 2026 com as gráficas operando em capacidade máxima e o livro físico vivendo uma nova era de ouro, eu teria sorrido com aquele ceticismo típico de quem ouviu, por anos, a profecia do “fim do papel”. Mas a realidade, felizmente, adora contrariar os pessimistas.
Ao ler os dados recentes noticiados pelo jornal O Globo, a sensação não é apenas de alívio, mas de confirmação de uma tendência que acompanhamos de perto nas últimas duas décadas: o Brasil lê, e lê cada vez mais, porque as mulheres decidiram que assim seria.
Os números são claros e contundentes. As mulheres brasileiras consolidaram uma liderança absoluta no consumo de literatura. Não estamos falando de uma vantagem marginal; a diferença é gritante. A média de leitura entre o público feminino saltou para cerca de dez títulos por ano. Para um país que historicamente lutou para melhorar seus índices de leitura, isso é uma vitória monumental.
Mas o que torna esse cenário de 2026 verdadeiramente fascinante não é apenas o volume de livros na cabeceira delas, mas a influência irradiadora que elas exercem. A pesquisa do O Globo toca em um ponto nevrálgico: o papel da mulher na formação de novos leitores.
Na estrutura familiar brasileira, a mãe, a avó, a tia ou a irmã mais velha continuam sendo as grandes curadoras culturais. Quando uma mulher se torna leitora voraz, ela raramente lê sozinha; ela arrasta a casa junto. Ela é a principal responsável por colocar o primeiro livro infantil na mão do filho, por dar o exemplo de desligar a tela e abrir uma página. Se hoje vemos o Brasil ganhando mais leitores a cada ano, renovando a base de consumidores de cultura, devemos esse “milagre” à insistência e ao exemplo feminino.
O reflexo econômico disso é imediato e visível. O setor gráfico brasileiro, que muitos juravam que encolheria, está imprimindo milhões de livros. É um setor crescente, robusto, que movimenta desde a produção de celulose até a logística de entrega na porta de casa. O livro se reafirmou como um objeto de desejo, de presente e de refúgio em um mundo cada vez mais digital.
Para nós, escritores, o sentimento é ambíguo, mas extremamente positivo. Ficamos felizes? Sem dúvida. É um alento saber que existe um público ávido esperando pela próxima história. Mas também admitimos: elas estão no comando, e isso é desafiador.
Escrever para o público feminino brasileiro de 2026 exige mais. Elas são críticas, atentas, exigentes e plurais. Não aceitam mais enredos rasos ou personagens estereotipados. Ter as mulheres como as grandes “patronas” do mercado editorial nos obriga, enquanto autores, a elevar a qualidade da nossa literatura. É uma mudança de paradigma que nos tira da zona de conforto.
O mercado editorial brasileiro está vivo, pulsante e imprimindo como nunca. E se as máquinas não param, é porque elas não param de ler. Que sorte a nossa.
Carlos Magno Mieres Amarilha
Presidente do Grupo Literário Arandu
